Fenômeno e Convicção

Jesus restaurou a saúde de inúmeros enfermos. Ele, que viera para os doentes do espírito, sendo mesmo chamado de médico das almas, não desdenhou curar também os corpos sempre que isto se mostrasse útil e possível à luz das Leis Divinas.

E, à medida que o conhecimento de seus poderes se espalhava, mais doentes o procuravam, ou lhe eram levados, não sendo raras nos relatos da Boa Nova passagens do tipo “... todos que tinham doentes atingidos de males diversos traziam-nos, e Ele impondo as mãos sobre cada um, curava-os” (Lucas 4;40).

Tais lembranças sugerem naturalmente duas considerações, sendo a primeira delas o fraco poder de convencimento dos fatos incomuns, que causam impacto, os chamados milagres. Jesus os produziu generosamente ao longo de Seu ministério sem que isto suscitasse mais amplo apoio ao Seu trabalho, ficando Ele, inclusive, completamente só nos momentos mais difíceis. A segunda é o evidente desinteresse da grande maioria pela dimensão espiritual da vida, com suas conhecidas conseqüências: imediatismo, materialismo, ilusão... e sofrimento.

A cura de um cego de nascença descrita no Evangelho de João (capítulo 9, 1 a 34), ilustra bem essas dificuldades. O fato é irrecusável, pois se passa com pessoa bem conhecida, que nasceu cega, pedia esmolas para sobreviver e tem a visão restaurada pelo Mestre. O acontecimento extraordinário desperta, contudo, reações surpreendentes. Alguns dos que conheciam o cego chegam a duvidar do ocorrido, afirmando “deve ser alguém parecido com ele”. Por outro lado, fariseus, que se apresentavam como modelos de vivência religiosa, aos quais o ex-deficiente fora levado, mostraram indignação, pois a cura se dera num sábado, dia que a lei – entenda-se a convenção humana – consagrava ao repouso... Não são registradas manifestações de alegria pela benção recebida por aquele homem nem qualquer mostra de interesse por Jesus e Sua mensagem. A única exceção é o próprio beneficiário que ao ser indagado de forma insistente e até constrangedora sobre o que pensa de Jesus, afirma, corajosamente: “É um profeta”.

Foi por conhecer profundamente a natureza humana que Alan Kardec baseou a divulgação doutrinária principalmente no estudo e na conscientização dos adeptos sobre as realidades espirituais e não na produção de fenômenos que impressionam, deslumbram, mas são logo esquecidos.

E é seguindo esta orientação que nas Casas Espíritas, onde, graças aos recursos da oração e da fluidoterapia, tantos alcançam a melhoria da saúde, todos são invariavelmente informados quanto a necessidade de saúde do espírito, ou seja, a superação dos vícios e ilusões e a prática do bem como base da saúde e da felicidade reais. (A Gênese (15; 24))

Espíritos batedores e perturbadores
Estes Espíritos, propriamente falando, não formam uma classe distinta pelas suas qualidades pessoais. Podem caber em todas as classes da terceira ordem. Manifestam geralmente sua presença por efeitos sensíveis e físicos, como pancadas, movimento e deslocamento anormal de corpos sólidos, agitação do ar, etc. Afiguram-se, mais do que outros presos à matéria. Parecem ser os agentes principais das vicissitudes dos elementos do globo, quer atuem sobre o ar, a água, o fogo, os corpos duros, quer nas entranhas da terra. Reconhece-se que esses fenômenos não derivam de uma causa fortuita ou física, quando denotam caráter intencional e inteligente. Todos os Espíritos podem produzir tais fenômenos, mas os de ordem elevada os deixam, de ordinário, como atribuições dos subalternos, mais aptos para as coisas materiais do que para as coisas da inteligência; quando julgam úteis as manifestações desse gênero, lançam mão destes últimos como seus auxiliares. (Livro dos Espíritos - Questão 106)

Visto que o Espiritismo tem que marcar um progresso da Humanidade, por que não apressam os Espíritos esse progresso, por meio de manifestações tão generalizadas e patentes, que a convicção penetre até nos mais incrédulos?“Desejaríeis milagres; mas Deus os espalha a mancheias diante dos vossos passos e, no entanto, ainda há homens que o negam. Conseguiu, porventura, o próprio Cristo convencer os seus contemporâneos, mediante os prodígios que operou? Não conheceis presentemente alguns que negam os fatos mais patentes, ocorridos às suas vistas? Não há os que dizem que não acreditariam, mesmo que vissem? Não; não é por meio de prodígios que Deus quer encaminhar os homens. Em Sua bondade, Ele lhes deixa o mérito de se convencerem pela razão”. (Livro dos Espíritos - Questão 802)

Será necessário que professemos o Espiritismo e creiamos nas manifestações espíritas, para termos assegurados a nossa sorte na vida futura?

Se assim fosse, seguir-se-ia que estariam deserdados todos os que não crêem, ou que não tiveram ensejo de esclarecer-se, o que seria absurdo. Só o bem assegura a sorte futura. Ora, o bem é sempre o bem, qualquer que seja o caminho que a ele conduza”.(165-799)

A crença no Espiritismo ajuda o homem a se melhorar, firmando-lhe as idéias sobre certos pontos do futuro. Apressa o adiantamento dos indivíduos e das massas, porque faculta nos inteiremos do que seremos um dia. É um ponto de apoio, uma luz que nos guia. O Espiritismo ensina o homem a suportar as provas com paciência e resignação; afasta-o dos atos que possam retardar-lhe a felicidade, mas ninguém diz que, sem ele, não possa ela ser conseguida. (Livro dos Espíritos – Questão 982)

Falsíssima idéia formaria do Espiritismo quem julgasse que a sua força lhe vem da prática das manifestações materiais e que, portanto, obstando-se a tais manifestações, se lhe terá minado a base. Sua força está na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom-senso. Na antigüidade, era objeto de estudos misteriosos, que cuidadosamente se ocultavam do vulgo. Hoje, para ninguém tem segredos. Fala uma linguagem clara, sem ambigüidades.

Nada há nele de místico, nada de alegorias susceptíveis de falsas interpretações. Quer ser por todos compreendido, porque chegados são os tempos de fazer-se que os homens conheçam a verdade. Longe de se opor à difusão da luz, deseja-a para todo o mundo. Não reclama crença cega; quer que o homem saiba por que crê. Apoiando-se na razão, será sempre mais forte do que os que se apóiam no nada.

Autor: Carlos Alberto de Lima
Publicação: 14 mar 2011