Reencarnação

"E, descendo eles do monte, Jesus lhes ordenou, dizendo: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do homem seja ressuscitado dos mortos.

"E os seus discípulos o interrogaram, dizendo: Por que dizem os escribas que é mister que Elias venha primeiro?

"E Jesus, respondendo, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e restaurará todas as coisas;

"Mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim farão eles também padecer o Filho do Homem.

"Então entenderam os discípulos que lhes falara de João Batista" - (Mateus, cap. 17 - 9 a 13).

A REENCARNAÇÃO
A reencarnação era uma idéia comum nos tempos de Jesus. Nas Escrituras Sagradas, o ponto onde o Mestre refere-se a ela de forma clara e inequívoca é a passagem em que Ele, depois de descer do Monte Tabor, onde mantivera contato com seus amigos espirituais, afirma de modo inquestionável que João Batista teria sido a reencarnação do antigo profeta Elias.

Os Espíritos foram criados simples e ignorantes. No início, não possuem o conhecimento do bem ou do mal. São dotados do germe da inteligência e, com o tempo, adquirem consciência de si mesmos. Sua constituição, como já dissemos, é abstrata e o modo como foram criados ainda não foi revelado totalmente pelos Espíritos superiores.

Todo Espírito está destinado à perfeição, e como não poderia atingi-la numa só vida, Deus concede-lhe outras existências, para que possa crescer em inteligência e moralidade. O renascimento sucessivo do Espírito na dimensão material é chamado reencarnação.

A evolução do Espírito se dá progressivamente, pois ela está intimamente ligada à experiência. Através de lutas expiatórias e provas, o Espírito caminha em busca da própria iluminação e aperfeiçoamento. Ao iniciar sua jornada encarnatória nos primeiros estágios evolutivos, o Espírito sofre todo tipo de influências, boas e ruins. Como é ignorante, suas tendências o levam a vivenciar experiências no campo do erro. Nem todos os Espíritos passam pelo caminho do mal, mas obrigatoriamente passam pelo da ignorância.

O Criador concede ao Espírito a liberdade de ceder ou resistir às más influências. Trata-se do "livre arbítrio". Esta liberdade de agir como bem entende, desenvolve-se à medida em que ele adquire consciência de si mesmo. Isso faz com que tenha o mérito de suas próprias ações.

"Se o homem tivesse sido criado perfeito, seria levado fatalmente ao bem; ora, em virtude de seu livre arbítrio, ele não é fatalmente levado nem ao bem nem ao mal. Deus quis que ele fosse submetido à lei do progresso e que esse progresso fosse o fruto de seu próprio trabalho, a fim de que tivesse o mérito desse trabalho, do mesmo modo que carrega a responsabilidade do mal que é feito por sua vontade" - (Allan Kardec - A Gênese, cap. III, item 9).

Uma encarnação pode ser livre, compulsória ou missionária, dependendo da evolução e da necessidade do Espírito. Cada existência na matéria significa um passo a mais na busca do aperfeiçoamento moral e intelectual. O Espírito pode, por má vontade ou preguiça, manter-se estacionado, mas nunca regride a estágios inferiores ao que se encontra. Tudo o que ele adquire em uma encarnação faz parte de seu patrimônio espiritual e ele poderá usar em outras experiências, para seu crescimento.

O número de encarnações necessárias ao esclarecimento definitivo do Espírito varia entre eles. Os que estiverem imbuídos de boa vontade, tendem a atingir a perfeição mais rápido. Os que se deixam iludir no caminho, perdem tempo e demoram mais para atingir o grau de Espíritos puros. Tudo funciona mais ou menos como numa escola, onde se aprende muito, pouco ou nada, de acordo com o esforço de cada um. E como numa escola, aqueles que não adquirirem condições não poderão ascender a classes mais adiantadas.

É durante suas reencarnações que o Espírito tem oportunidades para reparar erros e sofrer experiências libertadoras. O mundo material é, portanto, uma importante escola de aprendizado. No mundo espiritual se colhe os frutos daquilo que se planta em vida. Todos os Espíritos sofrem as vicissitudes da existência corpórea; uns para expiar seus erros; outros, mais evoluídos, para provarem virtudes ou cumprirem missões.

A reencarnação é a chave que explica a Justiça e a Misericórdia de Deus. Através dela, todas as aparentes injustiças podem ser compreendidas. Todos os erros podem ser redimidos por meio de novas experiências e os Espíritos, cedo ou tarde, encontram o caminho do Bem.

"Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens" - (I Coríntios, 15.19).

LEI DE CAUSA E EFEITO
O Criador concede a seus filhos o livre arbítrio, ou seja, a liberdade de agirem como bem entenderem. Porém, todas essas ações estão sujeitas a uma lei natural de justiça, chamada de "causa e efeito", "ação e reação" ou "plantio e colheita". É por meio desta lei que somos responsáveis por tudo quanto fazemos ao próximo ou ao nosso próprio Espírito.

Livre é a semeadura das atitudes, porém, obrigatória é a colheita de suas conseqüências. Uma má ação, que prejudique o próximo ou a nós mesmos, resultará numa reação contrária de igual intensidade. Esta é uma maneira sábia da Lei ensinar a não repetirmos o erro. A Lei não castiga, mas corrige.
O princípio de causa e efeito não foi criado pelo Espiritismo. Ele é uma das leis da Física promulgada pelo sábio Isaac Newton, que tem o seguinte enunciado:

"A toda ação realizada num determinado sentido, corresponderá uma reação de mesma intensidade e direção oposta".

Muitos sofrimentos de pessoas ou povos que se observam na atualidade, são perfeitamente explicados pelo mecanismo da ação e reação da Lei de Deus. Obras más, de encarnações passadas neste ou noutros mundos, provocam colheitas desagradáveis na presente existência. Do mesmo modo, se o Bem for objeto de preocupação das criaturas, o futuro guardará para elas uma situação de paz, satisfação e felicidade.

A dor moral ou física deve ser encarada sem revoltas, pois geralmente são resgates ou provas necessárias ao adiantamento do Espírito. A aceitação das próprias dores produz alívio moral e ajuda na solução definitiva do problema. Só o esclarecimento pode retirar o homem do estado de revolta diante do sofrimento. A fé raciocinada é seguro escudo nas aflições pelas quais necessitamos passar.

De posse deste conhecimento corretivo da Lei, nós, seres humanos, devemos nos empenhar em ações de justiça e de benemerência para com o próximo, estimulando assim a Lei Divina em favor de nós mesmos.

"Porém os males mais numerosos são aqueles que o homem criou para si, por seus próprios vícios, aqueles que provêm de seu orgulho, de seu egoísmo, de sua ambição, de sua cobiça, de seus excessos em todas as coisas; aí está a causa das guerras e das calamidades que elas geram, das dissensões, das injustiças, da opressão do fraco pelo mais forte, enfim, da maior parte das moléstias" - (Allan Kardec - A Gênese, cap. III, item 6).

CARMA
Carma é uma palavra sânscrita* que significa ação. Não é um termo encontrado na Codificação Espírita, mas é usado hoje por muitos dos que se interessam pelo Espiritismo. Achamos por bem comentar seu significado de modo que se possa compreender seu real sentido. Pode-se afirmar que o Carma é a história do Espírito, desde que teve sua primeira encarnação no plano material. Quando começou sua ação evolutiva, teve início seu Carma. Ao contrário do que se pensa, Carma não é sinônimo de sofrimento. Carma é a "gravação" psíquica, existente no Espírito, contendo suas ações. É uma espécie de bagagem histórica, que lhe é própria. São suas virtudes, defeitos, créditos, débitos e tendências que formam a personalidade. A cada encarnação o Carma se modifica pela experiência na matéria. A educação e os costumes do povo onde o Espírito encarna dão a ele novas características morais e intelectuais. A lei de causa e efeito, agindo nas encarnações, regula a evolução do Carma modificando e renovando o patrimônio psicológico do Espírito. * O sânscrito é uma das mais antigas línguas da Índia.

A MORTE
Para sofrer suas experiências no mundo material, o Espírito se une a um corpo carnal, através do perispirito que lhe serve de elo. O corpo funciona como um instrumento de trabalho para a criatura. É movido por uma espécie de força motriz, derivada do "fluido vital".

A morte é a desorganização do corpo carnal. À medida que envelhece, ele desgasta-se materialmente. Quando ocorre a morte física há o conseqüente desligamento entre o perispirito e o corpo orgânico. Esse desprendimento faz com que a entidade retorne ao plano espiritual, que é a sua verdadeira pátria. No Espiritismo, a morte é denominada "desencarnação".

Logo depois da morte do corpo carnal, o Espírito fica mais ou menos confuso quanto ao seu novo estado. Esta situação chama-se "perturbação" e vai cessando gradualmente, variando em termos de tempo de acordo com o nível evolutivo do Espírito.

Aos poucos, o desencarnado vai tomando consciência de sua nova condição de Espírito livre e sua mente vai se adaptando à dimensão espiritual. Com essa melhoria, começa a compreender o estado de liberdade e anseia pelo progresso. Alguns Espíritos desencarnados ficam em estado de perturbação por muito tempo. A perturbação é um estado psíquico transitório que pode durar de alguns minutos a anos.

A VIDA DOS ESPÍRITOS
Após a morte física, as obras que se realizou no plano material determinam a situação de vida que o Espírito vai ter no plano espiritual.

No intervalo de suas existências corpóreas o Espírito permanece por tempo mais ou menos longo no mundo espiritual, onde é feliz ou infeliz segundo o bem ou mal que tenha praticado. A vida espiritual é na verdade sua verdadeira vida, seu estado definitivo. Nela ele progride igualmente e adquire conhecimentos especiais que não poderia adquirir na Terra. É onde se prepara para novas lutas no campo da matéria até que tenha se tornado puro e sem necessidade de novas experiências carnais.

O Espírito, portanto, depois de desencarnado, vai habitar em regiões astrais com as quais possui afinidade moral. Para facilitar o entendimento dos que estão iniciando no estudo da ciência espírita, falaremos desses lugares utilizando a forma como são concebidos pelo povo. Mas lhes daremos as características difundidas, aceitas e explicadas pela Doutrina Espírita.

a) o inferno
O Inferno é uma expressão bíblica, usada pelas religiões convencionais para designar as regiões espirituais onde habitam os maus Espíritos. A imagem que foi feita dele na doutrina cristã foi originada do paganismo, perpetuada pelos escritos dos poetas gregos. Não tendo o perfeito entendimento da vida espiritual nem da justiça de Deus, imaginou-se que os homens maus só poderiam merecer um castigo eterno.

A Doutrina Espírita veio nos esclarecer sobre esse importante dogma das penas eternas, difundido pelas religiões oficiais da época. Ensina que o Inferno é a morada temporária de entidades primitivas e malignas, inimigas dos princípios do Bem e revoltadas contra a misericórdia de Deus. Nessas regiões permanecem transitoriamente as almas dos que se comprazem no assassínio, no furto, na mentira, na luxúria e nas paixões humanas.

Os Espíritos desencarnados que vão para essas regiões astrais não ficam nelas definitivamente, como se pensava a princípio. Eles permanecem ali por períodos variáveis, até que surjam novas oportunidades de reencarnação. Todos os Espíritos inferiores, habitantes das dimensões trevosas, cedo ou tarde encontrarão sua luz através do esclarecimento reencarnatório.

Ou seja, o inferno, ou trevas segundo a Doutrina Espírita, é um estado de consciência compartilhado por aqueles cujos defeitos e sentimentos ruins predominam em suas personalidades, que se inclinam ao mal e nele se comprazem. São apenas irmãos imperfeitos e ignorantes, que têm o inferno dentro de suas próprias consciências e que, através de novas oportunidades dadas pelo Pai Celestial, através de sucessivas experiências encarnatórias também alcançarão a perfeição.

b) O purgatório
Purgatório é um termo usado comumente no Catolicismo. Foi criado pela "necessidade" de abrigar as almas dos que não eram muito maus para habitar o inferno, nem tão bons para merecer o céu. Nas obras espíritas acessórias, convencionou-se denominá-lo pela expressão "Umbral" e diz-se que é a região espiritual purgatorial próxima da Terra. A maioria dos recém-desencarnados passa um período mais ou menos longo neste lugar, ou situação psíquica, a fim de refletir sobre suas obras. O Umbral é uma dimensão de muito sofrimento. Abriga grande número de entidades em condições de dor e angústia. Aí instalam-se as colônias socorristas, tais como "Nosso Lar" e outras narradas na literatura mediúnica, para amparo dos Espíritos que são recolhidos nessas situações. Allan Kardec diz que o purgatório dos Espíritos também pode ser os mundos de expiação.

"O purgatório não é, portanto, uma idéia vaga e incerta: é uma realidade material que vemos, tocamos e sofremos. Ele se encontra nos mundos de expiação e a Terra é um deles. Os homens expiam nela o seu passado e o seu presente em benefício do seu futuro" - (Allan Kardec - O Céu e o Inferno, cap. V, item 4).

c) O paraíso
É a região astral onde moram os Espíritos puros e os bons Espíritos, que já adquiriram saber e moralidade. Esses planos são denominados popularmente de "paraísos" ou "colônias de luz". Alguns Espíritos que habitam essas regiões estão livres de encarnações, outros não. Os Espíritos puros podem reencarnar-se em mundos mais ou menos atrasados, para cumprirem missões.

Entretanto, não são mundos de contemplação como nos acostumamos a pensar. Ao contrário, são lugares de trabalho e ação no campo do Bem e do Saber. É onde o Espírito experimenta a verdadeira felicidade.

"A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não está na ociosidade contemplativa, que seria, como frequentemente se diz, uma eterna e fastidiosa inutilidade.

"...A suprema felicidade consiste em desfrutar todos os esplendores da Criação, que nenhuma linguagem humana poderia exprimir, que a mais fecunda imaginação não poderia conceber. Consiste no conhecimento e compreensão de todas as coisas, na ausência de qualquer sofrimento físico e moral, na satisfação íntima, na serenidade do Espírito que nada altera, no amor que une a todos os seres e portanto na ausência de todo o aborrecimento proveniente da relação com os maus, e acima de tudo na visão de Deus e na compreensão de seus mistérios revelados aos mais dignos" - (Allan Kardec - O Céu e o Inferno, cap. III, item 12).

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